quinta-feira, 30 de setembro de 2010

75 – das visões de mundo, 3


se aplicar pesos, massas graves que sabem densas medidas de acúmulo sobre si mesmas, num curto espaço, à razão de um ponto, apenas, um alfinete, um pêlo, seria já demais e a partir disso tantos volumes quanto um corpo, e mais outro, outro, e mais, isso cansa, a tensão de sustentá-la por um instante acima do chão, ter que sustentá-la nem que por um instante não tão colada ao chão, onde não está, mas mais longe, mesmo que tudo que de um lado tombe só faça estirar poeira, essa poeirada, uff!, e quem dirá empurrá-la um pouco mais para ali


quarta-feira, 29 de setembro de 2010

74 – das passagens, 3


A dor no pâncreas. Diante do espelho e com as mãos firmes nas bordas da pia, vê que a sobrancelha direita se contrai. Seria cãibra? As sobrancelhas também são chamadas de supercílios, principalmente entre lutadores, e quase nunca de sobrolho, assim no singular. Pensa nisso e projeta o último round: o locutor vibrando com “... o direto fantástico no sobrolho!” que levou um dos homens a nocaute. Isso seria engraçado. Não, essas coisas são engraçadas só para ele. E ri de nervoso, enquanto tenta cutucar por trás do estômago com o indicador da mão esquerda. A outra, ainda firme na borda da pia, sua e gela. Sui generis se escreve com hífen, agora? Sui generis é o caroço que apalpa. E uma tatuagem? Sim, uma bem discreta. Como se nada tivesse ocorrido. Atrás da orelha, quem sabe. Uma pulga.


segunda-feira, 27 de setembro de 2010

72 – das visões de mundo, 2


A ideia de superfície é muito interessante, ela diz. E o ensaio. Há sempre o truque, essa maneira de mostrar fielmente a natureza. Como uma máquina bustrofédica, entende? No lusco-fusco do próprio rastro? Ou um anfíbio em torneio, medroso de ir às últimas consequências.


sexta-feira, 24 de setembro de 2010

69 – das biografias, 7


Tocar a fábrica de louças sanitárias herdada do pai não era, na verdade, nenhum feito que exigisse enorme perspicácia. Em sua rotina, as jogadas mais ousadas consistiam, por exemplo, em diluir em mais uma parcela a dívida de um grande atacadista ou em oferecer de brinde um penico esmaltado aos clientes do varejo que comprassem um conjunto de banheiro completo. De modo que imediatamente chamou de “piada de mau gosto” o telefonema que recebeu de um dos gerentes dizendo “Sr. Mott, tem uma peça nossa, parece que assinada pelo senhor, sendo avaliada por alguns cavalheiros, aqui ao meu lado. Estão dizendo que ela não serve”.


domingo, 19 de setembro de 2010

64 – das biografias, 6


Neste momento, flibusteiros sobem o Chang Yian. Tomaso sente frio – como se há uma lua mergulhado no Yenisei. A mão do amigo sobre sua testa, e o aviso: “A movimentação a bordo é de batalha”. Tomaso, em delírio, se exaspera: “Chegou a estação? Já chegou a sua estação?”. Em silêncio, Arthur sobe para o convés, pisando firme o seu passo coxo.


sexta-feira, 17 de setembro de 2010

62 – das novidades, 4


Thamarah é uma mulher linda e decidida. Para ela, viver é a arte de satisfazer caprichos. Mas seus prazeres parecem estar com as horas contadas, quando o terrível Ivan decide amarrá-la em uma bomba-relógio.


quinta-feira, 16 de setembro de 2010

61 – das novidades, 3


O misterioso Oto, que todos achavam que tinha morrido, está novamente na cidade. Mas ele não será capaz de explicar os estranhos acontecimentos que cercam sua história, aumentando ainda mais a desconfiança da população de Santana de Cuparaquem.


domingo, 12 de setembro de 2010

57 – das passagens, 2


Vivem sob as telhas, 5 metros, no máximo, longe daquela janela. E são 5 os bicos que ele conta de lá. Às 6 da manhã, o fiapo de sol já sobre o telhado: é suficiente para a algazarra que o ignora, enquanto ele, insone, testando 5 pensamentos de morte, é todo atenção.


sábado, 11 de setembro de 2010

56 – da hominização, 3


E quando amanhece, alcança a iluminação: o pior tipo de gente é aquele que faz barulho e tem o sono pesado.


terça-feira, 7 de setembro de 2010

52 – das biografias, 5


Guacamole. É o que os artistas oferecem ao público no intervalo entre os atos. Um deles vestido de serpente. Outro, de raio, de tempestade. Observa os figurinos enquanto sua em bicas e o ar alucina, dilatado sobre a areia fina que ainda dança. Quando confere o horário, o telefone de Tomaso toca. Enfim, a ligação que esperava. “É para você, Aby. O tal do Greenberg”. Atende entusiasmado: “Cara, você não sabe. Hip-hop é isto aqui!”.


segunda-feira, 6 de setembro de 2010

51 – das biografias, 4


Um beduíno tem menos jeito com essas coisas. Sabe do vento, talvez, das zonas de água e alento, das alcatifas e da sombra que despista as formigas carnívoras do formigueiro. Mas, definitivamente, não é da sua natureza saber lidar com a beleza violenta dessas novas maravilhas.

Kalah-Kifur ouve de Filippo as limitações que este lhe atribui, falando alto. E no alto da duna se ri por dentro: tem a cabeça rápida e longe, ansioso pela prova no novo autódromo de Mashamagalla.


sábado, 4 de setembro de 2010

49 – das biografias, 3


A postura, embora necessária, às vezes incomoda. Nessas tardes quentes... A ponta da língua pressionada contra as costas dos incisivos frontais superiores: diminui a salivação. Olhos semicerrados, 45 graus, rumo ao chão, param no branco aberto da parede. Ali, parece um pato. Quando Georges aguenta ao seu lado mais de 20 minutos é muito. Depois disso, pragueja da dormência nos pés: “É disciplina! É projeto!”, contesta enquanto calça os sapatos. Mas, cabeça-dura, volta no dia seguinte. Respira fundo: 1, 2... Tudo passa agora. A coluna reta – endireita. E se mudasse o título para A flor do vazio? Aquela pizza de ontem não desceu bem.


quinta-feira, 2 de setembro de 2010

47 – das biografias, 2


Essa agitação que sente: tão sua, parece vir de fora. Diz que nada é definitivo – redunda –, nada é definitivo. Lembra-se das manchas de pus no capote de Karl. Quase às 3 da tarde, numa tarde já o verão.

“Você tem a chave?”, pergunta para o rapaz suado. “Da academia?”, ele responde alongando-se em surpresa. Sorri pouco do achado, e desdenha: “Não, essa da garagem mesmo... Estou preso aqui. Mas obrigado”.

Dali até o último copo da noite, e as cinzas de um maço, conta treze carros que buzinaram lá embaixo.


quarta-feira, 1 de setembro de 2010

46 – das biografias


Quando chega a Slofa, grande rosto pálido e suarento. Entende que deve sentar-se e fazer um pedido, antes do cálculo. Posiciona as mãos. No bolso da camisa, a fotografia de Jacques L. (feita no verão, pela manhã) com a dedicatória:


Meu querido,

nos momentos mais difíceis da vida,

estufe o peito e diga com convicção:

agora fudeu!


Quando termina, é tempo. Levanta-se em brusco, retira a carta que deve enviar a Tomaso e a perde. Com minúsculas poeiras em volta, e rindo muito, volta para o trem.